A COMÉDIA DA NUTRIÇÃO

Os leitores provavelmente estranharão o título deste artigo. Eu também não gostaria de utilizá-lo, mas não encontro outra expressão adequada. Assim, pedirei a compreensão de todos.

Atualmente temos nutrientes com formas e aplicações diversas, como vitaminas, aminoácidos, glicose, carboidratos, gorduras, proteínas, etc. Todos estão a par do aumento que ocorre, a cada ano, na variedade de vitaminas. Todavia, a ingestão ou injeção dessas substâncias não produz efeitos permanentes, e sim temporários. No fim das contas, o que se observa é o efeito oposto: quanto mais se tomam vitaminas, mais o corpo enfraquece.

Não seria preciso explicar, a essas alturas, que o alimento serve para manter a vida; na interpretação desse aspecto, porém, há uma grande diferença entre a teoria atual e a realidade. Quando o homem ingere um alimento, em primeiro lugar ele o mastiga; passando pelas vias digestivas, o bolo alimentar vai para o estômago e, daí, para o intestino. As partes necessárias são absorvidas, enquanto que o resto é eliminado. Até chegar a esse processo, entram em ação diversos órgãos, como o fígado, a vesícula biliar, os rins, o pâncreas e outros, que extraem, produzem e distribuem os nutrientes necessários ao sangue, músculos, ossos, pele, cabelos, dentes, unhas, etc. Assim, é realizada incessantemente a atividade de manutenção da vida. Trata-se de uma misteriosa obra da Criação, impossível de ser expressa por meio de palavras. É esse o estado normal da Natureza.

Conforme dissemos, os nutrientes indispensáveis à manutenção da vida humana estão presentes em todos os alimentos. Se há uma grande variedade de alimentos, é porque todos eles são necessários. A quantidade e a preferência variam conforme a pessoa e a hora; a variedade do que se quer comer também depende da necessidade do organismo. Por exemplo, a pessoa come quando tem fome; bebe água quando está com sede; se deseja comer algo doce, é porque tem falta de açúcar em seu organismo; se lhe apetece algo salgado, é porque tem falta de sal, e assim por diante. Por conseguinte, as necessidades naturais do homem evidenciam o princípio exposto. A melhor prova é que quando a pessoa está desejando algo, esse algo lhe é saboroso. Por isso podemos compreender o quanto está errado ingerir contra a vontade coisas que não são saborosas, como os remédios, por exemplo. A frase “Todo bom medicamento é amargo” também encerra um grande erro. O sabor amargo já é indicação do Criador de que aquilo é veneno e não deve ser ingerido. Assim, quanto mais saboroso o alimento, mais nutritivo ele é, porque a sua energia espiritual é mais densa e contém uma grande quantidade de nutrientes. Pela mesma razão, quanto mais frescos forem os peixes e as verduras, mais saborosos eles são; com o passar do tempo, a energia espiritual vai aos poucos abandonando-os, razão pela qual seu sabor vai diminuindo.

Vou dar uma explicação sobre os compostos vitamínicos. O organismo produz todos os nutrientes indispensáveis – sejam eles vitaminas ou não – a partir de quaisquer alimentos, e na quantidade exata que for preciso. Em outras palavras, a misteriosa função nutritiva do organismo consegue produzir vitaminas, na quantidade necessária, até mesmo a partir de alimentos que não as contêm. Assim, a atividade de produção de nutrientes constitui a própria força vital do homem, ou seja, a transformação do alimento inacabado em alimento acabado não é senão o próprio viver. Por essa razão, quando se ingerem compostos vitamínicos, que são produtos sintéticos, os órgãos encarregados da produção de vitaminas tornam-se inúteis e acabam se atrofiando naturalmente. Com isso, os outros órgãos relacionados também se atrofiam, oque vai enfraquecendo gradativamente o corpo. Vou citar alguns exemplos.

Houve uma época, nos Estados Unidos, em que esteve em moda um regime alimentar chamado Fletcher's. Esse método consistia em mastigar ao máximo os alimentos, considerando que quanto mais pastosos eles estivessem ao serem engolidos, melhor seria a digestão. Segui o método à risca durante um mês. Acontece que fui ficando fraco, não podendo fazer força como desejava. Desapontado, acabei abandonando o método, e assim as minhas energias voltaram ao normal. Foi aí que descobri que é um grande erro mastigar excessivamente os alimentos, pois, como os dentes os trituram bem, torna-se desnecessária a atividade do estômago e isso o enfraquece. Portanto, o melhor é mastigar os alimentos pela metade. Desde os tempos antigos, dizem que as pessoas que comem depressa e na hora de defecar também o fazem rapidamente são pessoas sadias. Nesse aspecto, o homem daquela época estava mais avançado que o homem moderno.

Por outro lado, se ingerimos medicamentos destinados a facilitar a digestão, a atividade estomacal se reduz, o que acaba enfraquecendo o estômago. Aí a pessoa toma remédio de novo, e esse órgão enfraquece mais ainda. Assim, a causa das doenças estomacais está realmente na utilização de remédios para o estômago. É comum ouvirmos pessoas que sofriam de problemas estômaco-intestinais crônicos dizerem que, não conseguindo curar-se com uma alimentação baseada em alimentos de fácil digestão, optaram por alimentos de digestão mais difícil, como o “ochazuke” e o picles japonês, e com isso conseguiram ficar curadas.

Comparemos essa força vital baseada na transformação dos alimentos inacabados em alimentos acabados com a atividade de uma fábrica de máquinas. Em primeiro lugar, adquirimos o material necessário. A fábrica queima o carvão, movimenta as máquinas e, pelo trabalho dos operários, produzem-se novas máquinas. Essa é a razão da existência da fábrica. Suponhamos, agora, que compremos máquinas prontas. Não haverá mais necessidade da queima do combustível, do movimento das máquinas nem do trabalho dos operários, e por isso não há outra alternativa senão fechar a fábrica.

20 de abril de 1950