GAIA
O nosso Planeta Terra
Malu M. Arantes
Consultora Holística e Escritora
Durante séculos o homem considerava-se separado do resto da natureza, vendo-a objetivamente à distância. Essa visão mecanicista do mundo surgiu na Grécia antiga, quando os filósofos se dividiram em duas escolas de pensamento: a primeira dizia que toda natureza, inclusive os humanos, era viva e autocriativa; a segunda defendia o mundo "real" que somente poderia ser conhecido através da razão, uma criação geométrica de Deus, um mundo sempre mecânico e perfeito. A segunda escola passou a ser o alicerce de toda visão do mundo do Ocidente, até hoje. Mas se tivesse sido o contrário, se Tales, Heráclito e outros filósofos organicistas, que consideravam todo o cosmos como vivo, tivessem sido vitoriosos, o que teria acontecido?
O que podemos concluir é que nada acontece por acaso e que era preciso o enfoque mecanicista para que a tecnologia se desenvolvesse. E esta mesma tecnologia, que permitiu ao homem aventurar-se no espaço, permite-lhe hoje começar a compreender a natureza real do nosso planeta e descobrir que ele é um organismo vivo e que tudo que nele existe são seus "hóspedes", inclusive o homem.
São imensas as implicações dessa descoberta, que mal começou a ser explorada. Hoje sabemos que GAIA (Deusa da Terra na antiga mitologia grega ou Geia, na forma romana) é um planeta vivo, com diferentes tipos de vida sobre ele. Esse despertar está levando o homem a se preocupar com a ecologia, isto é, com o combate à destruição e à poluição do grande organismo vivo do qual sua vida também depende. É um despertar, para a maioria, ainda sem a plena consciência de que Gaia tem vida própria e que tem seus próprios mecanismos de defesa. A ecologia ainda é movida pelo interesse da sobrevivência humana.
Os novos estudos, ainda muito incipientes, levaram a várias conclusões sobre o "Sistema de Gaia": a Terra regula sua própria temperatura, como também fazem todas as criaturas, de modo a permanecer dentro dos limites sadios para sua própria vida, a despeito do crescente calor do Sol. Da mesma forma que o nosso corpo, Gaia renova e ajusta ininterruptamente o equilíbrio de elementos químicos em sua atmosfera, mares e solos. A maneira como esses sistemas fisiológicos funcionam já é parcialmente conhecida.
Do ponto de vista de Gaia, nós seres humanos somos um experimento, uma espécie em evolução e em estudo, em choque com nós mesmos e com outras espécies. Ao contrário da maioria das outras espécies hóspedes, nós não fomos biologicamente programados para saber o que fazer; somos um experimento em livre-arbítrio.
Os humanos não foram as primeiras criaturas a criar problemas para si mesmas e para o Sistema de Gaia, mas somos talvez os únicos hospedes a compreender esses problemas e ter condições de encontrar soluções para eles. Devemos aceitar essa responsabilidade para que possamos preservar a nossa saúde juntamente com a saúde do planeta. Embora esses problemas tenham se tornado tão graves e vastos, ainda temos condições de reconhecer que não somos perfeitos e onipresentes e que podemos aprender muito com o nosso planeta progenitor, que também não é perfeito nem onipresente, mas que conta com a experiência de bilhões de anos em superar grandes dificuldades, muito mais do que nós.
Os filósofos de nossos dias reconhecem que os alicerces de nossos conhecimentos estão balançando e que nosso entendimento da natureza como uma máquina não pode mais ser sustentado. O homem projeta sua sociedade como se fosse uma máquina e vive competindo entre si para decidir qual o melhor projeto social para acabar com a fome e com os demais problemas. Os mais preocupados com os problemas sociais acham que devem abdicar de seus interesses pessoais em favor da sociedade e outros preferem manter-se individualistas. Se observarmos bem, nenhum ser na natureza, além dos humanos, enfrenta essa opção e por uma razão óbvia: porque nenhuma das duas alternativas pode dar certo. Nenhum ser na natureza poderá jamais ser inteiramente independente, embora a independência atraia todo ser vivo, seja ele uma célula, uma criatura, uma sociedade, uma espécie ou todo um ecossistema. Todo ser é parte de um ser maior e seu interesse deve ser temperado pelos interesses do ser maior a que pertence. Essa consistência mútua opera em todas as esferas da natureza.
Portanto, para cuidar de nós mesmos, deveríamos interferir o mínimo possível nos hábitos de Gaia e procurar aprender mais lições com seu próprio comportamento. Gaia não depende de nós para se salvar, pois ela se salvará por si mesma, mesmo que tenha que utilizar mais seus vulcões para regular sua temperatura interna, mesmo que tenha que provocar tempestades, furacões, tornados, maremotos etc., para se reequilibrar. Nós é que dependemos dela.
Devemos ajudar a preparar um futuro melhor para nossos descendentes, através de uma relação melhor com o Sistema de Gaia, que nos gerou e do qual somos parte. Gaia é um grande ser, mas não é nosso, não podemos dominá-lo ou controlá-lo e sim estudar o seu Sistema, para com ele aprender mais sobre nós mesmos.