SÍNDROME DO PÂNICO
Alguém, dirigindo seu carro a caminho do trabalho, para num farol vermelho, e começa a sentir taquicardia. A respiração também se altera, e é inevitável sentir um medo terrível de morrer. Sai do carro correndo por socorro. Daí para frente, começam a se tornar repetidas as crises, e a pessoa começa a evitar todas as situações onde elas ocorreram, ou onde pressinta que elas poderão ocorrer. Essa restrição pode chegar a ponto de ter que largar o emprego, por ser muito longe, ou, não usar mais o carro, não freqüentar lugares públicos, ou nunca mais subir num prédio que tenha mais que três andares.
As pessoas que sofrem desta Síndrome são abruptamente atacadas pelo medo da morte iminente. Normalmente esse medo começa por sintomas físicos incompreensíveis, não relacionados a qualquer doença orgânica, são estranhos e desconhecidos do indivíduo até então, e, apesar de não achar causa física para seus males, ou talvez mesmo por isso, eles evidenciam cada vez mais a possibilidade da morte súbita e sem explicação.
A Síndrome do Pânico leva a uma restrição dolorosa da vida do indivíduo. Ele se vê subitamente privado, encarcerado por um intrincado mecanismos de medos que determinarão a partir de então, limites estreitos com relação ao trânsito possível na vida. O medo passa a ser um muro a demarcar brutalmente seu horizonte.
Apesar de já ter sido diagnosticada em 1964 por Donald Klein, a Síndrome do Pânico parece estar hoje em moda, e isso deve ter alguma explicação. É crescente o número de pessoas com Pânico, e também as tentativas de explicá-la. Ela é chamada de Síndrome e não de doença, justamente por não ter uma etiologia conhecida, e ser acompanhada de sintomas variados, embora todos eles estejam relacionados com as reações do homem ao medo.
A Psiquiatria não encontrou resposta definitiva para ela, embora aponte para uma deficiência no complicado mecanismo Serotonérgico do cérebro, e seus remédios realmente ajudarem nos casos mais graves, não temos uma resposta definitiva até agora.
A palavra pânico tem uma origem interessante, ela vem de um antigo deus grego chamado Pã. Conta a história que ele nasceu na Arcádia, e foi abandonado pela mãe numa caverna escura. Ele é um deus da Natureza, sempre associado com campos, grutas e vales, e nunca à lugares civilizados. Era um errante sem estabilidade nem genealogia definida. Por causa de sua genealogia extremamente numerosa e obscura, considera-se que Pã pode surgir em qualquer lugar. Na origem da palavra Pã, encontramos o significado de todas as coisas que uma pessoa precisa para viver, ligadas estreitamente a Natureza. Segundo conta-nos a história, depois da morte desse deus a humanidade perdeu a capacidade de se comunicar com a Natureza, e de estar estreitamente ligada a ela, ouvindo sua voz criativa, sentindo por experiência a alma das coisas naturais.
Mas porquê estaríamos falando agora de Mitologia grega ?
Porque parece que ela pode nos dar idéias, pistas, para tentarmos compreender a Síndrome do Pânico, principalmente se ela leva o nome desse deus antigo.
A Síndrome do Pânico parece atingir as pessoas que moram em grandes centros urbanos, e a maioria delas já dizem vir sentindo alguns sinais estranhos há anos. Nunca se preocuparam com eles, como a maioria de nós vamos "levando" a vida sem nos preocupar com as questões complexas da alma humana. Vamos adiando, nos adaptando a uma vida muitas vezes insalubre, sem nos perguntar, profunda e sinceramente do que precisa nosso espírito para se fortificar, sem ouvir a voz da nossa Natureza.
O homem deste século não foi preparado para viver as complexidades do seu próprio ser, e de suas relações com os outros seres.
Numa pequena pesquisa sobre a Síndrome do Pânico, vimos que a cura esteve sempre associada ao retorno do homem a Natureza, mas isso na maioria das vezes exige da pessoa uma mudança radical no seu estilo de vida, com um comprometimento real na busca de seus significados mais verdadeiros, exercitando-se em ouvir novamente sua Natureza.
Socialmente falando, o aumento do número de casos dessa Síndrome, talvez fale de uma necessidade coletiva desse retorno, retomar nossas perdidas conexões com o nosso mundo interno, natural, com a nossa alma e o nosso significado de viver.
Regina H. H. Sampaio (Psicóloga)